terça-feira, 8 de julho de 2014

Termos de execução de trabalho

Já não pegava neste blog há anos, mas acontecimentos recentes fazem-me sentir que lhe devia pegar de novo.
Uma das coisas que aprendi ao longo dos anos com as más experiências foi a ter um contrato para TODOS os trabalhos, independentemente do seu valor. Por norma vão logo abaixo do orçamento, na segunda página, e a maior parte dos clientes nem os lê, como acontece com aquelas coisas que passamos à frente quando instalamos software.
Deixo-vos aqui o meu documento corrente para apresentar orçamentos, pode ser que vos faça jeito.
Sei que a mim me poupou muitos dissabores.

ORÇAMENTO

Cliente: Nome do cliente, com NIF, morada, telefone, e-mail, etc
Comissionado por: A pessoa que contrata o serviço. Pode ou não ser funcionário do cliente. Os mesmos dados (telefone, mail, etc)
Peça: O nome da peça a ser executada (ex: capa da revista Y, ilustrações para manual escolar do ano X)
Trabalho: Descrição do trabalho, peça por peça

Preço unitário: 

Ilustração
xxx,00€
Capa de livro
xxx,00€
Elemento cénico
xxx.00€
Total:










Nx Ilustração
xxx,00€
Nx Capa
xxx,00€
Nx Elemento cénico 
xxx,00€
Soma
Licença de reprodução (20%)
________________________
Bruto
xxxx,00€
xxxx,00€

________
xxxx,00€
IVA(23%)
xxxx,00€
Sub-total
xxxx,00€
Retenção (29,6%)
xxx,00€
Total
xxxx,00€
















Pagamento:  O pagamento deve ser efectuado em tranches de 30% com a adjudicação do trabalho, 30% com a aprovação de todos os esboços e estudos e os restantes 40% contra entrega do trabalho final.

ou

O pagamento deve ser feito após a entrega das imagens em baixa contra factura proforma.

Após boa cobrança será enviado o respectivo recibo verde (e o trabalho em alta, caso só haja ).



Obs: Este orçamento é meramente indicativo com base nos dados disponíveis, não vinculando o autor ao cumprimento dos mesmos.

Nome

Local, data, ano

Termos da licença de direitos de reprodução

Cliente: Mesmos dados de acima
Uso: Parte importante. Se pagaram para usar no manual, não podem usar no livro de apoio, senão têm que o indicar e conta para o orçamento. Se foi para a revista, não podem reutilizar para pub.
Área de Cobertura: Território nacional? Comunicação interna? Mundo?
Duração: Uma edição, 6 anos (para manuais escolares), um mês/semana/ano (para publicações), sem termo
Exclusividade: Alguns clientes querem que aquilo nem sequer apareça no nosso portfólio. Tem um custo.
Créditos: Sempre. O teu nome e contactos na ficha técnica.
Termos especiais: Alguma coisa não prevista, mas que seja de ficar por escrito (ex: ilustrações para um manual de forças secretas que tenha que guardar sigilo por uma questão de defesa nacional)


Propriedade:
1. O direito de autor na obra comissionada pelo cliente é retido pelo ilustrador.
2. Ao cliente, ou ao agente que age como intermediário, é concedida uma licença para reproduzir a obra apenas nos termos descritos na aceitação de comissão. Se não for explícito na aceitação, é concedida uma licença para um único uso no território nacional.
3. No decorrer da licença, o ilustrador notificará o cliente de qualquer exploração da obra para propósitos que não a auto-promoção, e o cliente terá direito a fazer objecções razoáveis se essa exploração for passível de deterimentar o negócio do cliente. 4. Quando o uso da obra for restrito, o ilustrador cederá nominalmente ao cliente uma licença de uso para outros propósitos, sujeita a pagamento acrescido, em linha com os valores actuais concordados entre o autor e o cliente.5. A licença aqui concedida para uso da obra é válida apenas após boa cobrança do valor combinado previamente, e nenhum direito de reprodução ou publicação é concedido até ao pagamento total do valor em causa.
6. A licença aqui concedida é pessoal para o cliente ou agente e os direitos não podem ser transmitidos ou sub-licenciados a terceiros sem o consentimento expresso do ilustrador.

Pagamento
7. O cliente efectuará o pagamento até 30 dias após boa recepção do trabalho, após o que será aplicado cumulativamente o juro comercial em vigor, definido semestralmente por portaria.

Cancelamento
8. Se uma comissão for cancelada pelo cliente, será paga uma taxa de cancelamento nos seguintes termos:
(i) 25% do valor acordado se a comissão é cancelada antes da entrega dos esboços;
(ii) 33% do valor acordado se a comissão é cancelada na fase de esboços;
(iii) 100% do valor acordado se a comissão é cancelada na entrega da obra;
(iv) pro rata se a comissão é cancelada numa fase intermédia.
9. Na eventualidade de cancelamento, a propriedade de todos os direitos garantidos por este acordo revertem para o ilustrador, excepto se a obra é baseada em identidade visual do cliente ou em caso de acordo contrário.



Entrega
10. O ilustrador fará os seus melhores esforços para entregar ao cliente a obra na data prevista e notificará o cliente de qualquer atraso antecipado à primeira oportunidade, caso em que o cliente poderá (excepto se o atraso é devido ao cliente) cancelar a comissão sem pagamento, na eventualidade de o ilustrador falhar a entrega no prazo previsto.

11. O ILUSTRADOR NÃO SERÁ PASSÍVEL DE RESPONSABILIDADE POR QUALQUER PERDA OU DANO CONSEQUENTE DE UMA ENTREGA ATRASADA DE UMA OBRA.

12. O cliente fará uma objecção imediata no acto de entrega, se a obra não estiver em acordo com o briefing. Se essa objecção não for recebida pelo ilustrador no prazo de 21 dias após entrega da obra, será conclusivamente presumido que a obra é aceite.

Aprovação/Rejeição
13. Caso a obra não seja satisfatória, o cliente pode rejeitar a obra com o pagamento de uma taxa de rejeição nos seguintes termos:
(i) 25% do valor acordado se a comissão é rejeitada antes da entrega dos esboços;
(ii) 50% do valor acordado se a comissão é rejeitada na entrega.
14. Na eventualidade de rejeição, a propriedade de todos os direitos garantidos neste acordo revertem para o ilustrador, excepto se a obra é baseada em identidade visual do cliente ou em caso de acordo contrário.

Alterações
15. Se o cliente alterar o briefing e pedir alterações subsequentes, adições ou variações, o ilustrador pode requerer considerações adicionais por esse trabalho. O ilustrador pode recusar efectuar alterações, adições ou variações que substancialmente alterem a natureza da comissão.

Garantias
16. Excepto quando a obra é baseada em referências materiais ou visuais fornecidas pelo cliente ou previamente acordado, o ilustrador garante que a obra é original e não infringe nenhum copyright existente, e garante que não a obra não foi usada anteriormente.
17. O cliente garante que obteve todas as permissões necessárias pelo uso de material de referência fornecido e que indemnizará o ilustrador contra quaisquer pretensões e despesas, incluindo despesas legais razoáveis provenientes do uso pelo ilustrador de qualquer material fornecido pelo cliente.

Propriedade da obra
18. O ilustrador retém propriedade de todas as obras (incluindo esboços e outros materiais) entregues ao cliente.
19. O trabalho original do ilustrador não será deliberadamente destruído, danificado, alterado, retocado, modificado ou trocado por nenhuma forma sem o consentimento expresso do ilustrador.
20. O cliente devolverá ao ilustrador a obra até 6 meses após a entrega em condições idênticas às quais a recebeu, sem estar danificada, alterada e retocada, apesar do cliente poder reter cópias digitais e transparências que permitam a exploração dos direitos garantidos com a obra.
21. Se a obra for perdida ou danificada em qualquer momento em que esteja na posse do cliente (que será qualquer período entre a entrega da obra e o seu salvo retorno ao ilustrador), o cliente pagará compensação ao ilustrador pela perda/danos da obra em valor a ser acordado.
22. O CLIENTE NÃO SERÁ PASSÍVEL DE RESPONSABILIDADE POR QUAISQUER PERDAS OU DANOS PROVENIENTES DA PERDA OU DANO DA OBRA.


Créditos/Direitos morais
23. O cliente garante que o ilustrador é devidamente creditado em qualquer uso editorial da obra. Créditos para uso não editorial não são requeridos salvo se tal for indicado no acordo.
24. O ilustrador arroga-se no direito de interpor uma providência cautelar por quebra de direitos de integridade ou paternidade.
Exemplares
25. Excepto acordo em contrário, o ilustrador deverá receber não menos que quatro provas ou cópias impressas da obra.

Notificações
26. Todas as notificações devem ser enviadas para o ilustrador e para o cliente nas moradas indicadas neste acordo. Cada uma das partes deverá dar notificação escrita de qualquer mudança à morada à outra parte previamente à data dessa mudança.

Lei vigente
27. A aceitação dos termos deste contrato concede ao mesmo um título executivo.

28.Estes termos e condições são validados pela lei nacional e não podem ser alterados salvo acordo escrito. Qualquer situação omissa será resolvida pelo tribunal da comarca de (a tua localidade. para não teres que ir ao tribunal no outro lado do país para receber uns tostões).

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Segurança Social

Este é um ponto sensível para muitos dos profissionais liberais. Nem sempre conseguimos pagar as prestações a horas, e vamos passar a pagar em relação ao IRS ano anterior, independentemente de como esteja a correr este. Não sei se será uma mudança boa de um escalão fixo, mas isso é outro assunto.

O objecto deste post é dar seguimento ao anterior, onde discuti a necessidade de guardar um ordenado por ano para eventuais acidentes de percurso.
Mas parece que isto não é bem aceite pela segurança social.
Neste momento estamos a descontar 29,6% sobre o rendimento relevante (70% no regime simplificado, em que o restante é considerado despesa-o que como vimos antes não se aproxima nem de perto da realidade).

E, segundo a carta que recebi hoje as contas são as seguintes:
Prestação de serviços do ano anterior: 14400€ (para continuar com as contas a 1200€/mês)
Rendimento relevante (70%*€14400)=10080€
Duodécimo: 10080/12=840€
E sobre este valor mensal é aplicado o IAS 840/419,22=2, o que nos coloca no terceiro escalão, sendo aplicada a base de incidência contributiva sobre o escalão imediatamente inferior, ou seja 186,13.

MAS ISTO TEM UMA GRANDE FALHA!
É que nos estão a dizer que recebemos 1200€ por mês, quando esta conta não está correcta.
Isto só faz sentido se presumirmos que o profissional liberal não só recebe ao mês como ainda por cima, ao contrário de todos os outros trabalhadores, não tem direito a 13º.
Senão vejamos:
com um rendimento bruto de 14400, se recebermos 1200*12 a conta faz sentido.
Só que o profissional liberal não é (ou não é suposto ser) um empregado, que recebe regularmente ao final do mês, com direito a subsidio de férias e de natal.
A maior parte deles até recebe à semana. Ou à hora.
 Mas 14400/52 semanas dá 276,9 por semana, que multiplicados por 4 daria 1107,70€, bem abaixo do que a SS diz que recebemos por mês.
E o trabalhador por conta de outrém? com o mesmo ordenado bruto anual (14400€/13) recebe 1107,70€.
Sim, recebe EXACTAMENTE o mesmo que nós por semana e no final do ano recebe um ordenado extra de acertos, dos bocadinhos de semana que foi acumulando ao longo dos meses.
Mas só é colectado por 12 meses!!!

Sou só eu que sinto que estou a ser abusado???

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Quanto custa esta aventura

Recentemente tive que fazer contas à vida, e achei que seria interessante divulgar convosco quanto ganha realmente um freelancer.

Tomemos por exemplo alguém que ganha 1200€ (mil e duzentos euros) por mês a recibos verdes.
Parece um bom valor, muito boa gente fica com o olho cheio quando lhe oferecem valores deste montante.
Mas façamos as contas.
Para começar temos as prestações fixas e obrigatórias.
21,5% de IRS, correspondentes a 258€.
Depois a segurança social fica com 186€, neste escalão.
Portanto, mensalmente sobre os mil euros, descontam à cabeça 444€.  Isto é mais de um terço do que receberam.
Mas não nos podemos ficar por aqui. O profissional liberal é obrigado a contrair um seguro de trabalho, que rondará os 150€/ano em média. Há mais baratos com menos cobertura e mais caros com mais, mas esta é a média. São menos 12,5€ por mês.
Continuamos para o equipamento, essencial a grande parte dos artistas. Um bom computador, com uma esperança média de vida de 4 anos, custa uns 2500€, que dividindo por 4 anos dá 625€/ano, a dividir por 12 meses dá 52,08€ por mês.
Saldo até agora, só para se manterem a trabalhar, 444+12,5+52,08=508,58€.
Ligação à internet e telefone, essenciais para trabalhar hoje em dia. Em média rondam os 50 euros. Há mais baratos, mas provavelmente são demasiado lentos para o que é preciso, envio de ficheiros grandes e afins. Soma 558, 58€.
Vamos então falar de software? Óbvio que muita gente pirateia. Mas não é suposto ser preciso. Nem vou pegar pelo windows, que costuma vir com o computador. Vamos só ao office e a uma suite de desenho. Adobe CS4 suite(já não é o mais recente, mas ainda pode durar uns 4 anos): 3500€ Office 2010: 380€ (também costuma durar um par de anos) soma de software: 3880€, a dividir por 4 anos==970, a dividir por 12 meses=80,83€
Soma: 639,41€
Já ultrapassámos os 50%? Parece-me que sim.
Enfim, ainda levam para casa cerca de 560,59€.
Não é mau, para quem produziu 1200€ de riqueza.
Mas que disparate. Fiz as contas todas a dividir por 12. Não contei com subsidio de natal nem de férias.
Ah, e não esquecer que não há direito a baixas por doença, paternidade, apoio à família, subsidio de desemprego então é esquecer. Todos estes valores vão sair do bolso do freelancer.
E não se pode viver na corda bamba, não é?
Uma jogada inteligente seria guardar pelo menos um ordenado por ano para um azar. Ora 1200€/12=100€.
Ui. Total para viver: 460,59€.

Desta fortuna retirem a renda, a alimentação e a roupa, se conseguirem.
Luxos?
Só realmente a liberdade de gerir o tempo conforme nos dá mais jeito.
O que nem sempre se verifica porque o cliente acha que estamos à disposição 24 sobre 24 horas, o trabalho é sempre para ontem e o pagamento prometido para o final do mês afinal só é feito a 180 dias.
Tem coisas boas. Tempo para estar com a família, tempo que não se perde nos transportes todos os dias, o conforto de trabalhar em casa.

Espero não vos demover, não é esse o objectivo deste post. É só mesmo porque tomei mais uma vez noção do que me custa manter-me a trabalhar e da talhada que levo todos os meses de impostos.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Orçamentos

Acontece com mais regularidade do que gostaríamos, chegar ao fim de um trabalho e andar às voltas com o cliente por causa de pagamentos, de direitos, de alterações. É sempre uma dor de cabeça, que acontece em grande parte porque não foram feitas as perguntas certas antes de se apresentar o orçamento.
Por isso deixo aqui uma lista de sugestões de dados a obter do cliente, antes de entregar o orçamento.

1-Quem é o cliente?
  • Nome, NIF, morada. Estes dados são essenciais.
  • Quem aprova o trabalho final? Muitas vezes estamos a trabalhar com intermediários, que nos dão um OK deixando-nos com a ideia de que realmente o trabalho foi aprovado, quando na realidade ainda tem que passar pelo aval de outra pessoa. Julgamos o trabalho terminado e entregue e de repente lá vem mais uma alteração...
  • Quem trata dos pagamentos? Será que depois de terminado o trabalho vamos andar meses à volta de um departamento financeiro? É importante que se esclareça o processo de pagamento, o tipo de documentos que precisam e o nome da pessoa responsável pelo processo.
2-Quem comissiona?
  • Os dados de quem comissiona. Pode ser um agente, uma agência que trabalha para terceiros.
  • Qual a % da comissão. Aqui ter em atenção que uma comissão de 50% sobre o trabalho não é a mesma coisa que uma comissão de 50% do trabalho. Numa delas o trabalho vai para o cliente com 150% do valor, sendo 100% para o autor e 50% para o agente, noutra o agente fica com 50% do valor que vai para o cliente. 
3-Onde vai ser usado?
  • O local de uso, se é um outdoor, um livro, uma exposição, e em quantos locais vai estar exposto.
    Uma ilustração para o jornal local não tem o mesmo numero de visualizações que uma para a newsletter de uma multinacional com milhares de empregados.
  • Se é uma publicação, quantos exemplares? Quantas edições?
4-Qual o uso que vai ser dado ao trabalho?
  • Por o cliente ter comprado uma ilustração para a sua publicação não lhe permite usar essa imagem como campanha de marketing, ou mesmo de vender produtos com a imagem. O uso deve ser descrito claramente (promoção, venda, aluguer, etc).
5-Qual a duração da exposição da obra?
  • Vai ser usada apenas naquela publicação ou ficará depois no site do cliente, onde pode ser visto por milhões de pessoas e descarregado vezes sem fim?
6-Exclusividade
  • O cliente pretende guardar direitos sobre a obra? Caso contrário, findo o tempo de uso, a obra pode ser revendida a um banco de imagens, por exemplo.
7-Créditos
  • O nome do autor estará presente e em local visível? Muitas agências subcontratam a ilustração, mas não querem que o cliente saiba que o trabalho foi feito fora da agência, e como tal não identificam o autor. No entanto, não sendo funcionário da agência, o autor tem o direito à paternidade da obra.
8-Termos especiais
  • Se pretende apenas custear a execução, e deixar para depois o custo da licença de reprodução, no caso de obras que ainda vão a concurso.
  • Se pretende poder alterar a obra
  • Se pretende adquirir todos os direitos da obra
Com estes dados já é possível fazer um orçamento sem surpresas. Já se pode estimar se o trabalho vai ser feito de uma assentada ou se vai sofrer as intermináveis alterações, se vai ser pago a pronto ou a 90 dias, e com esses dados ajustar o valor do trabalho às condicionantes do cliente.

Há algo mais que gostassem de acrescentar?
Deixem-nos as vossas sugestões!

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Dia mundial do desenhador

a 15 de Abril de 1452 nascia Leonardo Da Vinci.
Por isso hoje é o dia mundial do Desenhador.
A todos os colegas, um grande parabéns!

quarta-feira, 14 de abril de 2010

A vida cíclica do freelance


O leão, porque não sabe quando voltará a ter comida, quando a tem, come até rebentar.

Quem anda no freelance sabe que é uma vida de ciclos.
Como uma onda, cuja linha sobe e desce de forma mais ou menos ritmada.
Alguns conseguem contornar ligeiramente este factor com avenças, mas regra geral é uma actividade marcada por períodos de muito trabalho intervalados por outros em que o trabalho é pouco ou nenhum. E mesmo as avenças tendem a terminar nas alturas de crise, deixando o freelancer completamente desamparado.

Porque acontece

Começa por haver tempo livre. Porque queremos ser artistas. Fazem-se uns bonecos, participam-se em blogs e concursos online, comentam-se os posts dos outros artistas, que verdade seja dita, a gente gosta de trabalhar mesmo quando não ganha nada com isso.
E o que acontece é que, o que para o incauto freelance é um momento de lazer, para um empreendedor exactamente a mesma coisa chama-se "networking".
Que se pode traduzir livremente por "fazer-se ver".
E com a visibilidade, naturalmente, começa a surgir o trabalho.
Entramos assim na parte ascendente da curva de produção do freelancer. Trabalho puxa trabalho, há uma presença forte na net, e invariavelmente os clientes aparecem aos jorros(ou pelo menos o suficiente para pagar as contas).
Como seria de esperar, um grande volume de trabalho implica uma dedicação quase exclusiva, o que significa uma redução drástica do tempo disponível, e lá se começa a cortar nas coisas menos "importantes", como fazer bonecos por prazer e comentar nos blogs.
E entramos na curva descendente.
Não é que não haja trabalho, mas começa a surgir com menos regularidade.
Afinal andámos desaparecidos, os clientes antigos já não se lembram de nós ou encontraram uma nova presença na rede e os novos nem sabem que existimos.
Até que o trabalho dá lugar ao tempo livre.
E o ciclo recomeça.

O dilema

Não seria agradável que o fluxo de trabalho fosse constante, e que ainda assim houvesse tempo para a fanart, os blogs, os concursos e o prazer?
Lá ser, seria, mas o síndrome do leão estraga tudo.
Não passa pela cabeça de nenhum freelance recusar um trabalho porque tem aquele tempo reservado para o networking. Trabalho é sempre trabalho. E se aquele é que era o "tal" cliente? E se o cliente vai ter com outro ilustrador e não regressa mais? Então andei a investir no networking para depois andar a recusar clientes? Vou deitar isto tudo a perder porque quero ler uns blogs? E? E? E?

Não.
Deitas tudo a perder precisamente porque deixas de ler os blogs.

Lidar com o networking

O que é que se pode fazer então?
A resposta é simples: disciplinar a coisa.
Reconhecer que o tempo passado em contacto com o mundo exterior não só é essencial para a nossa sanidade mental como é a única coisa que nos vai manter a trabalhar.
Há quem guarde uma hora de manhã para "soltar a mão", para ler os feeds, para socializar um bocadinho, quase como o coffee break numa qualquer empresa. Outros preferem fazê-lo ao fim do dia, quando já despacharam o trabalho e não têm que gerir a ansiedade do ter que fazer.
Cabe a cada um definir o investimento que vai fazer na publicidade ao seu negócio - que no fundo não passa disso - e que no caso do freelance se paga com tempo.
Reservar a altura do dia que considera ideal, seja pela paz de espírito seja porque é a altura em que as pessoas que interessam estão ligadas, e mostrar-se activamente.

Com a vantagem de saber que não só se está a divertir com o que antes era apenas um momento de lazer, mas que também está a dar um passo essencial para reduzir a barriga da curva do trabalho para uma coisa mais próxima da linha recta.

E talvez não sejamos tão duros quando os clientes num aperto começam por cortar na publicidade, afinal fazemos o mesmo.

O networking também se faz entre colegas

Agora partilhem os vossos momentos de networking: que sites e blogs visitam regularmente? Que método preferem, e quanto tempo reservam para a socialização?

artigo também em serfreelance.com

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Links parte 2

Hoje trago-vos um blog que, apesar de ser mais virado para o design e a fotografia, é em português e virado para o freelance.

Diz a autora, Ana Martelo:
"O SerFreelancer começou como uma espécie de colectânea de vários artigos, recursos e dicas de referência para todos aqueles que trabalham como freelancers, em qualquer área, mas mais dedicado à área de criação artística.
A ideia principal do Blog é ajudar todos aqueles que tal como eu trabalham sozinhos.
O Blog é escrito por AnaMartelo, Designer e Fotógrafa freelancer.
Se, assim como ela, é freelancer ou apenas interessado na área, sinta-se a vontade para comentar, propor artigos ou fazer qualquer questão.
Cumprimentos,

AnaMartelo"

Ide e espreitai.
SerFreelancer.com

Mas depois voltem :)

quarta-feira, 10 de março de 2010

Carta a um Ilustrador

Caro ilustrador:

Eu sou um editor que até há pouco contratava ilustradores para os meus livros.
Mas entretanto um amigo disse-me que podia tê-lo a trabalhar de borla.
O meu amigo disse-me que a única coisa que tenho que fazer é prometer mais trabalho no futuro se eu gostar do seu trabalho.
O meu amigo disse-me que consigo até ter uma série de ilustrações sem lhe pagar um tostão, desde que lhes chame "testes".
O meu amigo também me disse para lhe dizer que tenho outros ilustradores a concorrer ao trabalho, e que escolherei o melhor de entre vós.

Não fazia ideia de que era tão fácil ter um ilustrador a trabalhar de borla e em troca terei que levar o meu amigo a almoçar para lhe agradecer.

Sinceramente,
Potencial Cliente

terça-feira, 3 de novembro de 2009

3 meses

Após uma longa ausência (1 mês de semi-férias, 1 mês a recuperar o trabalho que não foi feito nas semi-férias e mais um mês a meio gas por doença relacionada com o excesso de trabalho aliado ao pouco sono) creio que estou finalmente recuperado.
Por isso nada como voltar à carga.

Deixo-vos uma pergunta:

Vêm-se a fazer alguma outra coisa que não seja desenhar/pintar/design'ar?

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

O "concurso" - parte II

Num mundo perfeito, todas as pessoas seriam competentes nas suas funções, garantindo não só o lucro para a empresa para a qual trabalham como também o bem-estar, a justa e atempada remuneração e dignidade dos seus colaboradores, regulares ou não.

Mas o mundo não é perfeito.

Enquanto freelancers, a única coisa que realmente oferecemos são soluções que se afigurem como mais-valias para o negócio do cliente. Tudo o resto é cosmética.

Um colega de profissão rejeitou recentemente um trabalho.
Apesar de ter um portfolio na net, o cliente insistia em reunir para avaliar o trabalho deste ao vivo, apesar da distância ser considerável, sem ter ainda adjudicado o trabalho.
E provavelmente o cliente iria pedir uma "prova" ao vivo, para ver quanto tempo demora a realizar o trabalho, juntar vários candidatos para que a pressão da concorrência leve a baixar o preço, um sem-fim de manobras com o único intuito de fazer baixar o custo.
No fundo, um "concurso".

É aqui que um bom freelance se demarca.

Compreende que este género de cliente está tão focado no custo que provavelmente está a descurar outras caracteristicas do trabalho. Provavelmente sempre trabalhou assim, e como funciona, estaciona na sua zona de conforto e não evolui dali.
Provavelmente o freelancer também tem o seu método, que levou anos a desenvolver, e também se sente mal quando lhe pedem para sair da sua zona de conforto.
Mas o freelancer é antes de tudo um bom profissional.
E ainda antes de recusar, tenta compreender qual é o problema.

O problema nunca é o dinheiro.

O custo é importante, mas o profissionalismo, a qualidade, a boa impressão que se deixa, o fazer com que o cliente final queira voltar a trabalhar com o nosso cliente, tudo isto são mais-valias que o cliente provavelmente descura por via do automatismo.
Mas sem saber exactamente qual é o problema, não é possível apresentar uma solução.

Que fazer então?

Perguntar. Saber exactamente porque é que a empresa funciona daquela maneira, e porque é que aquele método funciona para eles.
Verificar que partes de um bom serviço é que o cliente está a perder com o seu método, e então apresentar a nossa solução.

Podemos sempre desistir e achar que o cliente é um malandro, um chico-esperto, que só pensa no dinheiro-algo que ele está no direito de ser-, mas se não estamos a oferecer uma solução para um problema que se torne numa mais-valia para o cliente, não estamos a trazer beneficio a nenhuma das partes.

Gostava de ouvir as vossas histórias de como deram a volta por cima com problemas destes.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Links parte 1

Hoje deixo-vos aqui os primeiros links para blogs/sites/etc sobre a actividade freelance.

O primeiro é o Freelanceswitch.
Este site é um manancial de informação útil.
Tem uma série de artigos habilmente distribuidos por zonas de acção, um fórum, uma tira cómica, um podcast com profissionais que partilham as suas experiências, job boards e um sem-fim de links úteis tanto para informação como para ferramentas de trabalho.
Vale bem a pena seguir.

Na mesma onda temos o Freelancefolder.
Com um conteúdo mais "prático", também inclui artigos sobre marketing, inspiração, productividade, etc.

Para terminar por hoje há ainda o WebWorkerDaily.
Mais virado para quem usa a internet como ferramenta de trabalho, freelancer ou não, tem informação sobre a importância das redes sociais e como lidar com elas, uma biblioteca enorme e novidades sobre aplicações web que vão surgindo.

Vou pondo a lista ali ao lado para que possam ter acesso directo aos sites.

Que sites é que seguem?
Deixem as vossas sugestões de links.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

O "concurso"

O "concurso" está na moda.
O cliente quer editar um livro ilustrado.
Trata então de contactar uma série de ilustradores para que façam duas ou três ilustrações com base no texto, de modo a que o autor possa avaliar como irá ficar o produto final e escolher o ilustrador que mais lhe agradar.
Apenas não quer pagar nada por este trabalho inicial.
O vencedor ganha a possibilidade de ilustrar o livro, nos preços e dentro dos prazos definidos pelo cliente, e perde todos os direitos sobre as imagens.
Curiosamente, os valores oferecidos por este género de clientes são, regra geral, abaixo do valor médio de uma ilustração.

Então qual é a vantagem?
Nenhuma.

Isto é conhecido por "spec work", e traz à tona uma discussão acesa que se gerou com o evento do acesso generalizado a ferramentas profissionais. Mas o pincel não faz o artista, ou faz?
Além do mais, não é senão natural que o cliente queira uma garantia de que o produto final que obtem é exactamente aquilo que pretende. Mas se eu vou avançar com uma proposta, e no final o que ganho é menos que o que cobraria a um cliente normal, onde é que eu recupero o risco dessa proposta?

Como disse, a discussão sobre a legitimidade e justiça deste género de "concurso" está ainda muito acesa no meio profissional, e no fundo creio que caberá a cada um decidir por si se precisa mesmo de se sujeitar a este género de condições, e o mercado tratará de dar ou não continuidade a este género de propostas.

E é aqui que entra o objectivo deste post.
Dizer "não, obrigado".

Dizer não a uma proposta destas é dificil.
Principalmente porque qualquer ilustrador profissional fica legitimamente ofendido, e não é fácil ser-se diplomático quando alguém mexe com os nossos sentimentos.

Para dar alguma ajuda, elaborei uma carta que partilho convosco, que podem livremente alterar, adaptar e usar como vossa.
Tenta ser profissional, equilibrada e diplomática, faz saber ao cliente o nosso propósito enquanto profissionais e ajuda a aliviar um bocadinho aquele sentimento de que estão a desvalorizar o nosso trabalho.


O que acham? É uma boa alternativa? Funciona? Como podemos melhorar a carta?

quinta-feira, 30 de julho de 2009

A relação cliente/freelancer no mundo real

Não me canso de ver este filme. Creio que já as ouvi todas.
Fica aqui um momento de humor porque isto a vida não é só chatices.


terça-feira, 28 de julho de 2009

O preço pelo pacote

Não é incomum que um cliente que encomenda um trabalho grande peça um "desconto especial" por estar a dar muito trabalho.
Mas talvez seja um erro para o freelance aceitar fazer o desconto.

O que é que está em causa aqui?

Primeiro que tudo o desconhecimento jusificável por parte do cliente do processo de trabalho de um freelancer.
O que seria natural para qualquer empresa, uma vez que ao aumentarem a produção reduzem o custo por peça e não é senão natural que façam esse desconto, não se verifica para o freelancer. Este é uma pessoa só a trabalhar e não consegue reduzir custos apenas pelo facto de ter mais trabalho.
Antes pelo contrário, a dedicação exclusiva a um único trabalho, algo a que um freelance não está normalmente habituado, vai requerer um esforço suplementar para manter a dedicação e qualidade ao longo da obra.

Em segundo lugar, está a visibilidade. Um trabalho grande implica normalmente um periodo longo de ausência do mercado de trabalho. E a visibilidade é um factor essencial para que um freelancer tenha trabalho. Ninguém dá trabalho a quem já esqueceu.

Em terceiro lugar está a disponíbilidade. Se o freelancer pega num trabalho grande, há sempre uma forte probabilidade de ter que dizer "não" a novos clientes ou pior, a um cliente que gostou do trabalho dele e quer mais. Não atender esses clientes implica não só deitar por terra todo o trabalho que se teve a fidelizar o cliente como se corre o risco de o cliente depois de ter experimentado outro colega, não recorra mais aos nossos serviços, porque as pessoas de um modo natural oferecem alguma resistência à mudança.

Considerando estes factores, de repente um trabalho grande poderá até ficar mais caro.

Por isso o ideal nestas situações é conversar sobre estas questões préviamente com o cliente, para que haja alguma abertura para particionar o trabalho, negociando os prazos a cada tranche.

Isto permite não só alguma respiração entre fases como um melhor agendamento do trabalho, que permita ao freelancer cumprir com prazos e qualidade.

Como é que vocês negoceiam os vossos "descontos"?

sábado, 18 de julho de 2009

Quando somos arrastados para um prazo impossível...

Acontece de tempos a tempos.
O cliente pede um orçamento para um trabalho que deverá estar pronto daí a um mês.
O trabalho é coisa para durar 2 semanas, mais uma de margem de segurança, e avançamos uma data de entrega para daí a 3 semanas.
Mas o cliente demora uma eternidade a responder.
Quando finalmente responde, duas semanas se passaram. Entretanto aceitámos novos trabalhos que vieram preencher a nossa agenda, e não só ficamos apenas com duas semanas para fazer o trabalho como ainda por cima dessas duas semanas, metade do tempo já está agendado para outros trabalhos.
Depois vêm as directas, a desmotivação pelo cansaço, a inerente perda de qualidade. Ocasionalmente lá se consegue negociar a entrega de sexta para segunda seguinte e passamos o fim de semana a trabalhar, mas deixamos uma má impressão no cliente (afinal fomos nós que indicámos aquela data originalmente...).

Isto já sem contar com a lei de Murphy em que ficamos sem computador/internet/capacidade de trabalhar por algum motivo. O artista não é uma empresa, em que se um trabalhador adoecer outro toma o seu lugar. O cliente espera que o trabalho seja feito por uma pessoa concreta.

Então como lidar com esta situação se nos deixarmos arrastar para ela?

A primeira coisa a fazer é contactar o cliente.
Nada de "ah, mas...", nada de choradinhos.
Há que ser profissional e honesto e explicar ao cliente que a estimativa foi feita com base na aprovação imediata e que contemplava um determinado prazo para o trabalho.
Que como é natural um profissional liberal não pode ficar à espera que um cliente se decida por um orçamento, e como é natural aceitou novos trabalhos. Explicar bem como está neste momento a agenda, qual a disponíbilidade e qual o menor prazo em que conseguimos entregar um trabalho de qualidade.
Muito provavelmente o cliente já deu um prazo com margem de segurança.

O próximo passo é aprender com o erro.
Em cada orçamento enviado, estipular apenas o tempo previsto de execução, nada de datas. Demora 2 dias, demora 3 semanas. Isto permite ao cliente saber quando pode contar com o trabalho após a adjudicação.
Explicar bem que esse prazo é uma estimativa e que o prazo final só será indicado após a adjudicação, porque no hiato de tempo em que o orçamento foi entregue e o cliente respondeu podem ter surgido trabalhos que vêm preencher a agenda. Normalmente é boa política dar um prazo de validade ao orçamento, não só para salvaguardar a disponíbilidade mas também para fazer alguma pressão para que o cliente se decida.

Na eventualidade de realmente cair um trabalho que requer resposta urgente dentro do prazo de validade do orçamento, informar de imediato o cliente das novas condições. Qual a nova disponíbilidade de agenda e em que prazo conseguimos razoávelmente entregar o trabalho.

E finalmente se não der para cumprir com o prazo pedido pelo cliente, declinar graciosamente o trabalho. É duro, mas mais vale dizer que não a não cumprir com um prazo. Afinal um freelancer vive da sua reputação.

E vocês, já se deixaram arrastar para situações destas?
Partilhem as vossas experiências com prazos loucos.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Quanto cobrar?

A grande pergunta que oiço de gente jovem que se inicia nas lides do freelance:
-"Quanto é que devo cobrar por determinado trabalho?"

Mesmo entre os profissionais estabelecidos, esta pergunta não tem uma resposta fácil. Há sempre o medo de cobrar acima dos valores de mercado e assustar o cliente ou de cobrar abaixo e não só perder dinheiro como demorar uma eternidade até se conseguir cobrar um valor justo porque ficamos "marcados" por aquela bitola.
Alguns grupos partilham tabelas para terem uma ideia do que cada um cobra e não queimarem o mercado, oferecendo valores demasiado baixos.

Apesar de o valor de um trabalho estar directamente dependente da qualidade, experiência e nome na praça de um profissional, as bases com que devemos calcular o nosso valor são as mesmas.

Primeiro: saber quanto tenho que fazer para sobreviver.
Isto implica pagar as contas correntes(renda, agua, gas, luz, alimentação, etc.), o equipamento e software, formação e gastos ocasionais.
Portanto a base do valor/hora abaixo da qual perdemos dinheiro a trabalhar, a que os anglófonos chamam "break-even", é fácil de calcular. Somem as despesas correntes do mês, dividam por 176 horas (22 dias úteis a 8 horas de trabalho por dia) e têm o valor que precisam de cobrar por hora só para sobreviverem.
Daqui é relativamente simples fazer uma estimativa do tempo que vai demorar a fazer um trabalho e calcular o seu valor base.
Segundo: o lucro.
É aqui que a coisa complica. Um principiante poderá estar interessado em abdicar de algum lucro para construir primeiro uma carteira de clientes. Mas como dizer passado algum tempo a esses clientes que o trabalho que vêm fazendo por aquele valor passou a ser mais caro?
Como afastar o estigma do "artista baratinho"?
Pessoalmente, qualquer empresa só existe para ter lucro, portanto porque não o fará um profissional liberal?
O processo é o mesmo para calcular o lucro: estimar o quanto gostariamos de ter ao final do mês, distribuir pelas horas de trabalho e acrescentar ao valor/hora.
Os ilustradores costumam chamar a este valor acrescentado a "licença de reprodução".
A execução do trabalho faz o break-even, mas o cliente não quer o desenho para pendurar na parede, quer fazer dinheiro com ele, publicar. Portanto, é apenas justo que o ilustrador também tenha lucro. Como o lucro que o cliente vai ter depende muito do tipo de publicação que vai dar ao trabalho, uma licença de reprodução, que tem em conta coisas como o uso, a àrea de cobertura, a duração, a tiragem e as edições, torna-se um acrescento justo ao valor base, porque leva em conta o potencial de lucro que o cliente vai ter.
É claro, isto partindo sempre do principio que o valor inicial do vosso lucro mensal é realista, mas se olharem para as vossas despesas comuns não terão dificuldade em encontrar um valor adequado.

Qual é o vosso processo de calcular quanto cobrar a um cliente?

quinta-feira, 25 de junho de 2009

O que os clientes dizem e o que realmente querem dizer ...

"É um trabalho de caridade."
Todos os envolvidos vão ser pagos menos tu - a grafica, o designer, o angariador de fundos e até o puto que vai distribuir as coisas.

"Vai ser uma boa maneira de te expores."
Tal como passear na cova da moura com um cartaz que diz "odeio pretos".

"Vais compensar o vencimento com os próximos trabalhos."
Mas não connosco, nos vamos evitar-te depois disto.

"Só vai ser usado na net."
Onde vai estar durante anos e ser visto e feito download por milhares de pessoas, para meu benificio, mas tu não vais ganhar nada com isso.

"É para fins educacionais."
Vais aprender uma lição.

"Parece fantastico, mas queremos algumas mudançazinhas."
A secretária do patrão rabiscou umas tretas e queremos que fique parecido com aquilo.

"A nossa revista não é uma públicação comercial".
Vende 40,000 copias por semana e mesmo assim não queremos pagar aos talentos.

"Faz qualquer coisa rápida."
Mas se não ficar fantastico vais ouvir criticas à brava.

"Faz qualquer coisa simples."
Qualquer imbecil consegue fazer isso, por isso é que te escolhemos a ti.

"Não posso pagar muito."
Mas não quero que pareça barato.

"Entraremos em contacto consigo."
Encontramos um sem-abrigo disposto a fazer o trabalho por uma garrafa de camilo alves.

"Podes começar o mais rápido possivel?"
Tivemos o trabalho aqui pendurado durante semanas, mas agora o problema é teu.

"Temos alguma urgência."
Já temos o trabalho aqui há 3 semanas, mas o sobrinho da secretaria do patrão passou esse tempo a rabiscar umas tretas que o patrão odiou.

"Como o cartoon só será utilizado dentro da empresa, sai mais barato?"
Esqueci-me de referir que a empresa é uma multinacional com mais de 100.000 trabalhadores.

"Não percas muito tempo com isso."
Trabalha a noite toda, mas cobra-me só 5 minutos.

"Isto pode significar mais trabalho para si junto da nossa empresa."
Temos uma vaga excelente para senhora da limpeza que paga menos que o ordenado minimo.

"Gostaria de lhe enviar um exemplar como prova da nossa gratidão".
Um belo pisa papéis para as contas por pagar.

"Devido á crise económica não será possivel continuarmos a usufruir dos seus serviços na nossa publicação."
Em vez de diminuir o meu bónus anual e baixar a gama do carro, tu vais ser o bode expiatorio.

"Consegues realmente viver disso?"
Não devias estar a morrer á fome e a viver na rua?

"O cheque está no correio."
Virtualmente.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Por onde começar

Bem, por onde começar um blog sobre isto de ser "artista" e trabalhar por conta própria?
Talvez por responder à velha questão:
"Será que eu dava um freelancer?".

No meu ver, qualquer pessoa pode ser freelancer. É certo que exige algumas caracteristicas especificas de personalidade, mas com a fragilidade do actual mercado de trabalho o mais normal é que mesmo o trabalhador por conta de outrém as ande a desenvolver, se quer manter o emprego.

Para começar a pessoa deve ter alguns requisitos práticos, como ter um local para trabalhar, ter tempo para o fazer, ter um minimo de conhecimento de como se gere um negócio (finanças, contacto com clientes, registos, etc), ter um minimo de conhecimentos de networking, para se fazer chegar ao cliente e vice-versa, e finalmente e o mais importante, ter algo para oferecer que os outros queiram.
Se o que oferecem tem mercado é um assunto que deixaremos para depois.

Ora cumprindo estes requisitos, que são de ordem mais prática, o resto é uma questão de personalidade. Deve existir alguma capacidade de organização e comunicação, a pessoa deve ser capaz de se auto-promover, deve estar disposta a trabalhar no duro (a maioria das vezes o freelance é um trabalho duro. Tem as suas vantagens, mas a ligeireza não é uma delas) e principalmente deve possuir a tão falada auto-disciplina.
Caramba, isto parece o mais dificil!
Mas muitos trabalhadores já possuem estas caracteristicas. Talvez o motivo porque as tiveram que desenvolver não seja o mais agradável, mas o facto é que 90% da população é capaz de se levantar à mesma hora para ir trabalhar sem que o patrão tenha que ligar a perguntar se já acordou. Isto já de si exige uma grande auto-disciplina.

Voltando à pergunta, depois desta lista enorme de pré-requisitos, a resposta pode não parecer tão fácil. Mas eu creio que grande parte dos defeitos funcionais do trabalhador por conta de outrém de devem precisamente ao facto de não estarem a fazer por si próprios. O freelance continua a ter patrão que passa o cheque, muda é a cada trabalho. Continua a ter que se levantar áquela hora, a hora é que pode mudar todos os dias. E no final, o ordenado no banco e o tempo para o disfrutar são as duas grandes mais-valias deste modo de vida. Isso e fazer o que se gosta, que dá uma grande ajuda.

E vocês, acham que qualquer pessoa que se predisponha pode ser freelance?